Intercooperar para crescer

PUBLICADO EM: 05 MARÇO – 2020

Sendo uma instituição constituída para defender e projetar o futuro do Cooperativismo Vitivinícola e ajudar no ordenamento da Cadeia Produtiva da Uva e do Vinho no Brasil, a Fecovinho (Federação das Cooperativas Vinícolas do Rio Grande do Sul) é forte defensora da Agricultura Familiar e garante representação institucional na Serra Gaúcha de mais de 4.000 (quatro) mil famílias associadas a 6 (seis) Cooperativas Vitivinícolas e é um exemplo de intercooperação.

À MundoCoop, a jornalista e componente da equipe de comunicação e projetos da instituição, Jessyca Leon Bolzan, elucidou sobre a necessidade da intercooperação para o crescimento do movimento coooperativista e seus benefícios tanto para os cooperados quanto para as cooperativas.

Confira a entrevista na íntegra!

O que é a intercooperação?

Basicamente, a intercooperação é a união de duas ou mais cooperativas que tendem a trabalhar juntas para atender com mais eficácia os seus cooperados e assim exprimir maior força ao movimento. Lago caracteriza a intercooperação como um estágio avançado da cooperação. Afinal, primeiro unem-se os cooperados em uma cooperativa e depois as cooperativas em prol dos cooperados. O autor utiliza este termo muito provavelmente porque atualmente não é com tanta facilidade que encontramos cases de intercooperação, e a maioria deles existentes hoje são quase que na totalidade em favor de benefícios econômicos. O que não é ruim, obviamente, só acredito que precisamos avançar ainda mais e intercooperar nas ações do dia-a-dia, como uma cooperativa agro trabalhar com uma cooperativa de médicos para atender os planos de saúde e com uma cooperativa de crédito para atender as transações financeiras, por exemplo. Ainda podemos ir mais longe, que tal a contratação de mão de obra através de uma cooperativa de trabalho? E a de transporte para a demanda de fretes? Somos hoje em 7 ramos no cooperativismo, temos tudo para fortalecer ainda mais o movimento.

Braga diz que a intercooperação pode acontecer simplesmente através de trocas de informações e experiências, o que da mesma forma contribui com o desenvolvimento do cooperativismo, e também com a mobilização das cooperativas na defesa de seus interesses por meio de cooperativas de 2º grau, federações e/ou centrais.

Nesse sentido temos muitos exemplos, como a Central Aurora Alimentos/SC, que industrializa e comercializa a matéria prima de 11 cooperativas filiadas, como Fecoagro/RS (grãos), Fecoergs/RS (energia), Fecovinho/RS (uva), federações que representam politica e institucionalmente suas filiadas, esta última, composta por cooperativas vinícolas, terá no próximo ano o início dos trabalhos de sua Central também, para processamento de suco de uva.

A intercooperação ainda é fortemente referenciada no meio mercantil, como redes flexíveis de cooperação, considerada estratégia competitiva inteligente.  Se no meio empresarial o nosso 6º princípio é reconhecidamente utilizado, acho precisamos nos esforçar mais, de todos os lados.

O que faz do cooperativismo um movimento que se alinha aos 17 ODS da ONU?

Os sete princípios do cooperativismo por si só se alinham aos 17 ODS da ONU. Não é atoa que grandes influências nacionais e internacionais veem na cooperação, no trabalho colaborativo, a saída para muitos problemas da humanidade. O cooperativismo reduz desigualdades, promove o desenvolvimento da região que está inserido, assim como o crescimento econômico local, preocupa-se com o bem-estar e saúde de seus cooperados e empregados, busca através da intercooperação o fortalecimento do trabalho em conjunto, objetiva erradicar os problemas da comunidade através de ações sociais e parcerias, temos nos 7 ramos do cooperativismo diversos exemplos que também se alinham às ODS. Há cooperativas trabalhando no desenvolvimento de energia limpa, energia solar, preservação de rios, e principalmente conscientizando os seus cooperados para contribuir com isso também, seja no meio ambiente como um todo ou no consumo cada vez menor de agroquímicos, como exemplo de cooperativas que produzem de forma orgânica e biodinâmica.

Porque apostar na intercooperação como uma forma de contribuir com um desenvolvimento mais sustentável?

Essa pergunta não vou nem teorizar, vou exemplificar mesmo. Desde 2015, há um grupo de compras coletivas situado na Serra Gaúcha/RS, que através da união de 4 cooperativas vinícolas e uma cooperativa agrícola, vem trabalhando para gerar melhores resultados aos seus cooperados. O grupo organiza coletivamente a compra de insumos de 1.132 cooperados (dados de 2018), o que dá mais poder de barganha ao grupo, podendo baratear os custos da compra em uma margem de 8 a 9% menor que comparado com o preço no mercado convencional. Ou seja, o cooperado ao participar deste grupo deixar de gastar este valor, resultando em mais rentabilidade na sua propriedade familiar.  Outro benefício, é a compra do insumo indicado, além do grupo comprar, ele também faz um estudo criterioso de quais produtos são melhores para manter uma boa qualidade de produção, o que resulta em mais saúde ao agricultor, meio ambiente, e também ao consumidor final, pois impacta na qualidade final do produto. É possível visualizar o tripé da sustentabilidade neste case de intercooperação? Gera mais rentabilidade ao cooperado, cuida do bem-estar social do agricultor, do meio ambiente e do consumidor final, que como consequência gera a sustentabilidade da propriedade familiar e que por sua vez propicia a manutenção das cooperativas e dá mais forçar ao movimento cooperativista.

Como a sustentabilidade, através do cooperativismo, pode transformar uma comunidade?

A Cooperativa gera contratação de mão de obra local, o que consequentemente movimenta o mercado financeiro da região, além dos impostos, da mesma forma que retorna aos cooperados as sobras do exercício anual, contribui com causas locais (7º princípio – interesse pela comunidade), gera cultura e turismo em diversas oportunidades, em sua grande maioria preocupa-se com o meio ambiente e por isso é promotora de muitas ações sustentáveis, entre outros exemplos. Existem muitos municípios que tem como sua maior empregadora uma Cooperativa. Vamos fazer o caminho inverso. Pense, qual o impacto que geraria caso uma cooperativa fechasse?

O que pode ser feito para o cooperativismo ampliar seu potencial e se tornar, ainda mais, um caminho para atingir os 17 ODS, especialmente no Brasil?

O cooperativismo está atento as grandes mudanças, inovações, processos de governança e por isso sabe da importância de não só se manter competitivo, mas principalmente manter intacta suas raízes. Diria que trabalhar cada vez mais o 5º princípio – Educação, formação e informação, fará o cooperativismo voar longe. Informar as pessoas, formar novos líderes, educar a população sobre nosso papel, são obrigatoriedades do Cooperativismo. Os donos do negócio precisam estar atualizados tanto quanto os gestores e executivos das cooperativas para que cada vez mais deem respaldo às decisões de investir no tripé da sustentabilidade, da mesma forma que contribuir com o desenvolvimento global, avançar naquilo que já é feito de nossa natureza.


Por Redação MundoCoop


Deixe um comentário

comments powered by Disqus