País joga no lixo quase US$ 1 tri por ano de alimentos. Como reverter essa situação?

PUBLICADO EM: 17 DEZEMBRO – 2020

Um prejuízo econômico que custa ao país anualmente astronômicos US$ 940 bilhões, ou uma perda de 30% de tudo o que é produzido para consumo, até chegar à sideral montanha de 26,3 milhões de toneladas de alimentos simplesmente jogados fora – 10% do total disponível – segundo a FAO/ONU (2013)*. Na raiz do problema, como na maioria dos casos, a questão cultural é determinante para cristalizar um comportamento perdulário, indiferente e inconsequente por parte do brasileiro em relação à sustentabilidade planetária, independentemente da classe social a que pertença.

Uma das explicações para tal descalabro é o ideal tupiniquim da mesa farta, reforçado pela visão simplista de um país abundante em recursos naturais e não flagelado pelas guerras – mas agora por uma pandemia – há quase uma década no limbo recessivo, agravado pela crise internacional, que agora arrasta outros milhões de nacionais à indigência, compondo um cenário certamente muito distante das metas oficiais de segurança alimentar.

Neste aspecto, a experiência cooperativa pode ser fundamental para cativar corações e mentes brasileiras em torno do valor do alimento e da necessidade de preservá-lo para atender um número maior de pessoas, em momentos de baixa proteção social e de crescimento econômico ainda moderado, em razão da crise. Mas a maior ironia é saber que, para um país dos mais desiguais do mundo, o Brasil possui hábitos de desperdício de país desenvolvido. Aqui, desde tempos imperiais, persiste o mito da ‘mesa farta’, pela qual esbanjar e desperdiçar é um luxo desfeito às toneladas. Palavra mágica, a conscientização para reduzir perdas e desperdícios contou com uma iniciativa válida, mas que trouxe poucos resultados práticos, como a Semana Nacional de Conscientização da Perda e Desperdício de Alimentos, lançada há dois anos pelo governo federal, com a ideia de educar a população para combater desperdícios, em todas as etapas de produção e no consumo.

Segundo definição da FAO, Perdas e Desperdício de Alimentos (PDA) é um termo que se refere à redução da disponibilidade de alimentos para consumo humano ao longo da cadeia de abastecimento alimentar, sobretudo nas fases de produção, pós-colheita e processamento. Chama-se de desperdício, perdas de alimentos ocorridas ao final da cadeia alimentar (varejo e consumo final), em virtude de comportamentos adotados em estabelecimentos varejistas, restaurantes e domicílios. No entanto, o órgão das Nações Unidas admite a existência de ‘gargalos’ para a quantificação do PDA no país, como a ausência de uma metodologia específica e padronizada; a maioria dos estudos não supera a categoria de ‘estimativas subjetivas’, formuladas por meio de questionários, além de publicações que abordam o tema de maneira superficial, sem contar a baixa disseminação do PDA entre consumidores. Na América Latina, o índice de insegurança alimentar grave (fome) saltou de 7,6% em 2016 para 9,8% da população total em 2017 (FAO, 2018).  

analista da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), Gustavo Porpino

Em escala mundial, perda atinge níveis colossais, com a perda anual de até 1,3 bilhão de toneladas de resíduos alimentares, conforme estudo apresentado pela Agência Sueca de Proteção Ambiental durante a Semana de Inovação Suécia-Brasil 2020, que reuniu especialistas para debater o assunto. Embora seja um problema internacional, o analista da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), Gustavo Porpino, acentua que o Brasil apresenta “uma boa posição em relação à questão do desperdício, que integra os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU. “O Brasil é um país muito desigual, e a comida sinaliza riqueza. Famílias que enfrentaram pobreza no passado, por exemplo, tendem a gostar de preparar uma mesa farta, como forma de mostrar que vivem tempos melhores”, traduz o analista.

De acordo com estudo da Embrapa (2018), os alimentos mais desperdiçados pelos brasileiros são:

Arroz (22% do total)

Carne bovina (20%)

Feijão (16%)

Frango, (15%)

Hortaliças, (4%)

Frutas, (4%)

Fatores comportamentais – Fazendo as contas, a família brasileira desperdiça quase 130 kg de comida por ano, o que dá uma média de 41,6kg por pessoa, que vão simplesmente para o lixo, sob a influência de fatores comportamentais, por ordem decrescente: preferência por comida fresca (77%); importância de comprar em grandes quantidades para manter a despensa abastecida (59%); indiferença quanto ao excesso de alimento, na despensa ou na mesa (59%) e preparo de alimentos duas ou mais vezes por dia, reiterando a ideia de que ‘é melhor sobrar que faltar’.

As discussões para um ‘enfrentamento mais efetivo’ do problema prosseguem, no contexto de ‘Diálogos Setoriais União Europeia, sob a liderança da Embrapa e apoio da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Essa sinergia é fruto do projeto ‘Sem Desperdício’, resultante da parceria da Embrapa com a WWF Brasil e a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), que tem como objetivos, ‘fomentar a troca de conhecimento sobre ações de comunicação em favor das mudanças comportamentais do consumidor; engajar diferentes atores da cadeia agroalimentar (indústria e varejo de alimentos, por exemplo) em ações contra o desperdício, além de influenciar positivamente os projetos de lei nesse caminho, atualmente em tramitação no Congresso Nacional,  que terá a oportunidade de debater experiências de sucesso europeias.   

Relatório publicado no ano passado pelo The State of Food and Agriculture aponta que as perdas mundiais de alimentos equivalem a 14% do que é descartado, ao passo que o desperdício responde por 86% desse total. A definição clássica para perda está associada à falta de estrutura adequada, problemas na colheita, armazenamento ou transporte impróprio dos alimentos.

No caso do setor rural brasileiro, as perdas de produção e desperdícios decorrem, entre outros fatores:

Perdas                                                                                                            Desperdícios

Falta de adubação                                                                 Alimentos com data de validade vencida

Aplicação errada de agroquímicos                               Sobras de alimentos em hotéis e restaurantes

Manuseio pós-colheita equivocado                             Má utilização do alimento integral

Condições climáticas desfavoráveis                             Produtos sem padrão comercial

Ausência de tecnologia                                                       Falta de conscientização da população

Transporte e logística inadequadas                              Confusão nos rótulos

Embalagens ineficientes na conservação do           Condições inadequadas de armazenamento

alimento. 

Enquanto que em 2013, o PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) e a FAO lançaram o “Save Food” – que visava incentivar o desenvolvimento de campanhas pelo consumo sustentável dos alimentos, no Brasil, em 2018, o governo federal implantou a ‘Semana Nacional de Conscientização da Perda e Desperdício de Alimentos’, com objetivo de educar a população sobre a importância de combate ao desperdício em todas as etapas de produção e no consumo, além da criação de programas e fixação de metas, com a mesma finalidade, por parte de governos estaduais e municipais, sem contar a contribuição de ONGs e instituições privadas em ações de conscientização e desenvolvimento de projetos sustentáveis.

Ampliação da consciência – Uma das iniciativas recentes de maior impacto o #SemDesperdício, concebida pela ONG WWF-Brasil, juntamente com a Embrapa e FAO/ONU, voltada à ampliação de consciência dos consumidores brasileiros em relação ao desperdício de alimentos, resultando numa mudança importante com relação aos hábitos de consumo alimentar. Em seu site, a ONG dá dicas e boas ideias já colocadas em prática. Entre outras inovações, destaque para o projeto Banco de Alimentos, que recolhe alimentos com valor inferior ao das prateleiras do comércio, mas em plenas condições para consumo humano, em especial, volume que pode ser distribuído a instituições sociais cadastradas. Já o Meta Brasil Sesc consiste numa rede nacional de bancos de alimentos contra a fome e o desperdício: ‘busca onde sobra e entrega onde falta’. Ao mesmo tempo, esse programa desenvolve ações educativas nas áreas de Nutrição e Serviço Social, reforçando a necessidade de princípios, como alimentação adequada, reeducação alimentar e o fortalecimento das instituições assistidas, na mira da erradicação, um dia, da insegurança alimentar do brasileiro. Para a diretora do Departamento de Segurança Alimentar e Nutricional (Desan) da Secretaria de Agricultura do Paraná, Márcia Stolarski, ‘o primeiro passo’ é fazer um diagnóstico dos pontos críticos e causas das perdas na cadeia produtiva, e propor intervenções para corrigir os gargalos e aprimorar os sistemas de produção, abastecimento e consumo. “Há muitas práticas a serem aperfeiçoadas em todos os segmentos”, admite.

Diretor de Inovação da Embrapa, Cleber Soares

Problemas de conectividade à parte, a Embrapa avalia que tecnologia exerce papel estratégico na reversão das perdas rurais, no sentido de que os produtores disponham de mais informações a respeito, além de aperfeiçoarem o maquinário, produzirem com mais eficiência, o que evita perdas, aufere mais lucros, sem implicar impactos socioambientais – pelo menor consumo de recursos naturais – ou perder de vista a produtividade. Atualmente, o país dispõe de mais de 300 startups focadas na tecnologia para o agronegócio, as chamadas ‘agritechs’, responsáveis por investimentos anuais da ordem de R$ 100 milhões, por meio da oferta de toda sorte de serviços do Agro 4.0 para o setor.

Moeda de troca – Segundo o diretor de Inovação da Embrapa, Cleber Soares, “a sustentabilidade se tornará uma moeda de troca do agronegócio brasileiro”, para quem “o país precisa captar cada vez mais valor sobre a sustentabilidade para os produtos e serviços agropecuários, tendo em vista atender um mercado consumidor cada vez mais exigente”. Ele acrescenta que muitas corporações do setor já utilizam técnicas e ferramentas que tornam a produção mais sustentável. “Temos sistemas integrados de produção, florestas plantadas e plantio direto na palha, valores que passam despercebidos”, comenta. Para que a inovação tecnológica funcione a serviço da sustentabilidade no campo, Cleber considera essencial a promoção de parcerias entre instituições. “Temos de olhar para além da agricultura e além do alimento, ser mais protagonistas e indutores na busca de parcerias para alavancar os ativos e derivados das pesquisas”, afirmou o diretor ao Estadão.

Bruno Engel Justin, Vice-presidente da Coomafitt, Foto de Ubirajara Machado

Como contribuição para evitar perdas no transporte e manuseio dos alimentos, a Cooperativa Mista de Agricultores Familiares de Itati, Terra de Areia e Três Forquilhas (Coomafitt), no RS – voltada à alimentação escolar – em adotado a comercialização direta aos consumidores do litoral gaúcho, de modo a ‘aproximar produção e consumo’. Sobre o ‘espectro da fome que volta a assombrar o Brasil’, o presidente da cooperativa, Bruno Engel Justin, explica que, no caso do campo, as perdas de alimentos ocorrem, na maioria das vezes, porque o produtor não consegue comercializar sua produção. “Existe uma desconexão entre esses dois elementos (produção e consumo), que demanda repensar a lógica de abastecimento dos alimentos no país”, aponta Justin, ao se reportar ao papel dos chamados intermediários no escoamento da produção. “O produto de uma região tem de atravessar muitos caminhos, até chegar ao seu destino final, após percorrer uma cadeia complexa”. Para amenizar o problema, o dirigente cooperativo entende ser necessário “fomentar a cadeia curta, a cadeia local, onde o agricultor possa se organizar para comercializar, ou mesmo por meio de cooperativas, tendo em vista uma melhor distribuição”.

Ainda sobre o assombroso desperdício de alimentos, em meio a tanta fome sem perspectivas, Justin lembra de algumas políticas ajudaram o país a avançar nessa questão, citando o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos), de 2003, com o objetivo de promover o acesso à alimentação e incentivar a agricultura familiar. Por meio do PAA, o governo federal assumiria o compromisso de comprar alimentos produzidos pela agricultura familiar, com dispensa de licitação, e os destina às pessoas em situação de insegurança alimentar e nutricional, às atendidas pela rede socioassistencial, e pela rede pública e filantrópica de ensino.

O PAA prevê, ainda, a constituição de estoques públicos de alimentos produzidos por agricultores familiares; a formação de estoques pela agricultura familiar; abastecimento alimentar por meio de compras governamentais de alimentos; fortalecimento dos circuitos locais e regionais e redes de comercialização; valorização da biodiversidade e a produção orgânica e agroecológica de alimentos; incentivo a hábitos alimentares saudáveis e estímulo ao cooperativismo e ao associativismo.

Vulnerabilidade social – Integrante do programa Fome Zero da época, o PAA, segundo Justin, consistia numa política pública em que o governo federal comprava a produção dos agricultores familiares, doada em seguida a famílias em situação de vulnerabilidade social.  “Esse formato de comercialização beneficiava, tanto a quem produz, quanto a quem consome, garantindo preço, renda e investimento para os produtores rurais, além de manter o jovem no campo”, assinala.  Para ele, o desafio hoje é de “encurtar essa cadeia, sem deixar de debater o preço justo para quem compra e para quem produz, se distanciando da lógica especulativa da distribuição, para a formação desse preço”.

Avançando na ideia, o presidente da Coomafitt acredita na viabilidade de uma proposta, de cunho nacional, que garantisse que os alimentos fossem comprados localmente, tendo em vista a valorização dos produtos locais e do território em que estes foram criados. Mas para que a iniciativa ‘decole’, Justin entende que ela deve partir da cidade, justamente pela responsabilidade que o meio urbano tem sobre o consumo, na direção de um conceito ligado à agroecologia. “Essa demanda tem que vir da cidade, de maneira que as pessoas reflitam sobre o que elas estão comendo, de que forma é produzido o alimento, e como isso pode contribuir para organizar melhor o meio rural”, afirma. Justin conclui afirmando ser vital retomar a discussão sobre abastecimento e distribuição de alimentos, em especial, quanto ao ‘comprimento longo’ da cadeia produtiva, que prejudica quem consome e quem produz, além de não agregar valor ao produtor rural, daí a importância de valorizar a agricultura familiar, responsável hoje por mais de 70% do que o brasileiro consome todos os dias.

(*) Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação.


Marcello Sigwalt – Redação MundoCoop


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